sábado, 27 de março de 2010

Madrugadas (IV)

Alturas em que o formato da vida pode definir-se em 33 cl.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Diferenças modernas de candura

"(...) The family had a household oracle, a tutor named Pangloss. Young Candide absorved his teaching with the open-hearted simplicity of his age and nature. These teachings where metaphysico-theologo-cosmolonigological. Pangloss could prove to everybody's satisfaction that there is no effect without a cause: furthermore, that in this best of all possible worlds the Baron's castle was the finest of castles, and the Baroness the finest of all possible baronesses.
'It is demonstrable', Pangloss would say, 'that things cannot be other than they are. For, since everything is made for a purpose, everything must be for the best possible purpose. Noses, you observe, were made to support spectacles: consequentely, we have spectacles. Legs, it is plain, were created to wear breeches, and are supplied with them. Stone was made to be quarried, and built into castles: that is why his lordship has such a fine castle - for the greatest baron in the province must be of necessity also be the best housed. Pigs were made to be eaten: so we eat pork all the year round. It follows that those who say that everything is good are talking foolishly: what they should say is that everything is for the best."

Candide, Voltaire

Visões (III)




Mikhail Larionov

quarta-feira, 24 de março de 2010

Allegro non troppo

um nenúfar nas tuas mãos, como um prisma, redobrando o seu brilho na emancipação da tua luz; arregaço-te o vestido para que não te prives da água, dispo-te para que não tenhas mais medo de navegar no incerto...os teus dedos delicados desfolham a paisagem, cravam-se na tela de Deus, rasgando-a até sucessivos horizontes paralelos deslizarem na tua pele.
que te sobra agora que estás sufocada pela grandeza de existir mais que isto?
o olhar cadenciado, intermitente, colocado no vislumbre cego do amanhã, o braille da sabedoria perdida...todas as tuas acções determinadas por um contexto que pode não chegar.
mas corres, gritas, barafustas, agarras-te ao que pode nunca vir.
corres, gritas, protestas, choras aqui, intensamente, como se o teu sonho fosse algo concreto, como se o abstracto fosse forte, livremente despojado de si e materializado naquilo a que te agarras.
um nenúfar, narciso, para que te afogues no conhecimento...para que te afogues e eu te veja partir...

segunda-feira, 22 de março de 2010

Sons de despertador

Hoje apetece-me...

"Le travail humain! c'est l'explosion qui éclaire mon abîme de temps en temps.
«Rien n'est vanité; à la science, et en avant!» crie l'Ecclésiaste moderne, c'est-à-dire Tout le monde. Et pourtant les cadavres des méchants et des fainéants tombent sur le coeur des autres...Ah! vite, vite un peu; là-bas, par delà nuit, ces récompenses futures, éternelles...les échappons-nous?...
- Qu'y puis-je? Je connais le travail; et la science est trop lente. Que la prière galope et que la lumière gronde...je le vois bien. C'est trop simple, et il fait trop chaud; on se passera de moi. J'ai mon devoir, j'en serai fier à la façon de plusieurs, en le mettant de côté.
Ma vie est usée. Allons! feignons, faintéantons, ô pitié! Et nous existerons en nous amusant, en rêvant amours monstres et univers fantastiques, en nous plaignant et en querellant les apparences du monde, saltimbanque, mendiant, artist, bandit, - prêtre! Sur mon lit d'hôpital, l'odeur de l'encens m'est revenue si puissante; gardien des aromates sacrés, confesseur, martyr...
Je reconnais là ma sale éducation d'enfance. Puis quoi!...Aller mes vingt ans, si les autres vont vingt ans...
Non! non! à présent je me révolt contre la mort! Le travail paraît trop léger à mon orgueil: ma trahison au monde serait un supplice trop court. Au dernier moment, j'attaquerais à droite, à gauche...
Alors, - oh! - chère pauvre âme, l'éternité serait-elle pas perdue pour nous!"


Rimbaud

domingo, 21 de março de 2010

Acessos de pirataria

Ontem vi o Nine do Tim Burton...e tocou-me.
Interessante como uma animação pode conter tantos traços de humanidade...e a humanidade pode revelar-se uma constante procura de anima.

Verde...de simplicidade.



Dan Flavin

Saltou-me à vista...

Não é intenso verificar que até um fenómeno mais descrente pode ter seguidores?

sábado, 20 de março de 2010

Revisitar (IV)




"They say right when they flood the house and they tear it to shreds that... destruction is a form of creation, so the fact that they burn the money is ironic. They just want to see what happens when they tear the world apart. They want to change things."


"Donnie: Life isn't that simple. I mean who cares if Ling Ling returns the wallet and keeps the money? It has nothing to do with either fear or love.

Kitty Farmer: Fear and love are the deepest of human emotions.

Donnie: Okay. But you're not listening to me. There are other things that need to be taken into account here. Like the whole spectrum of human emotion. You can't just lump everything into these two categories and then just deny everything else!"


"Jim Cunningham: Son... DO YOU SEE THIS? This is an Anger Prisoner. A textbook example. DO YOU SEE THE FEAR, PEOPLE? This boy is scared to death of the truth. Son, it breaks my heart to say this, but I believe you are a very troubled and confused young man. I believe you are searching for the answers in all the wrong places...

Donnie: You're right, actually. I am pretty- I'm, I'm pretty troubled and I'm, I'm pretty confused. But I... and I'm afraid. Really, really afraid. Really afraid. But I... I... I think you're the fucking Antichrist."


(ontem a minha noite foi a este compasso...)

E por vezes recuso-me a ouvir de todo...



"Nem sequer é música isto que ouvimos,
é um arrastar de pés, de pedras, de pás que
escavam uma casa de cinzas,
são degraus que descemos,
martelando surdamente,
esmagando pétalas, insectos, cristais,
é um trabalho de facas no trono das acácias,
dos cedros,
facas que atravessaram os pulsos e coração,
é um rangido de portas,
janelas que batem,
o vento nos ramos,
nas folhas quebradas do Outono,
não, nem sequer é música isto que ouvimos."

Som, José Agostinho Baptista

quarta-feira, 17 de março de 2010

Inquérito

Quando a voz toca, itermitente. A pele inflamada...a luz. Permanentemente.
A janela elevada à tua cintura, tu envolta nela. Uma escadaria convidativa, um pensamento.

Tudo aparece e desaparece com uma pergunta. As cortinas do pensamento como um brilho veloz tremendo, impaciente.

Da voz fica o fantasma da palavra proibida. Aquela que desespera...
Impacientemente.

Abre as cortinas, para que entre mais desse dia, mostra-te, para que tudo seja consumido pela chama e para que nela tudo se torne ardente.

A estrela cadente da voz no abismo. As tuas mãos asfixiando a janela, num golpe apertado sobre o vidro, numa total destruição.
Ardentemente.

E ele sangra riscado pelas tuas unhas. Derrama-se em cacos, de despedaçada que foste.

Itermitente e reveladora. Essa é a tua perturbação, a do pensamento, a que foge da clareza, da claridade.
Perturbadoramente.

Como a natureza. A que tu não negas. Aqueles degraus.
A única coisa que permaneceu...



(um dos meus, 2010)

segunda-feira, 15 de março de 2010

domingo, 14 de março de 2010

O retrato dos meus dias

Café, caneta, vozes, praia e serra.

Uma ironia sabe sempre bem

"Louco, adj. Que sofre de independência intelectual em alto grau; que não se conforma às normas de pensamento, discurso e acção que os conformistas derivam do estudo de si próprios; divergente da maioria; em suma, pouco usual. É de referir que as pessoas são declaradas loucas por funcionários que não têm provas da sua própria sanidade mental. A título de exemplo, este vosso (ilustre) lexicógrafo não tem mais certezas quanto à sua sanidade do que qualquer pessoa internada num hospício; porém, e salvo demonstração contrária, em vez da grandiosa tarefa que julga estar a fazer, ele pode é estar a bater com os punhos contra as grades da janela de um asilo, afirmando chamar-me Noah Webster, para deleite inocente de muitos espectadores desprevinidos."

Ambrose Bierce

segunda-feira, 8 de março de 2010

Revisitar (III)




"Some places are like people: some shine and some don't."

"I can remember when I was a little boy. My grandmother and I could hold conversations entirely without ever opening our mouths. She called it "shining." And for a long time, I thought it was just the two of us that had the shine to us. Just like you probably thought you was the only one. But there are other folks, though mostly they don't know it, or don't believe it. How long have you been able to do it?... Why don't you want to talk about it?"



"Little pigs, little pigs, let me come in. Not by the hair of your chiny-chin-chin? Well then I'll huff and I'll puff, and I'll blow your house in."

"Have you ever had a SINGLE MOMENT'S THOUGHT about my responsibilities? Have you ever thought, for a single solitary moment about my responsibilities to my employers? Has it ever occurred to you that I have agreed to look after the OVERLOOK Hotel until May the FIRST. Does it MATTER TO YOU AT ALL that the OWNERS have placed their COMPLETE CONFIDENCE and TRUST in me, and that I have signed a letter of agreement, a CONTRACT, in which I have accepted that RESPONSIBILITY? Do you have the SLIGHTEST IDEA, what a MORAL AND ETHICAL PRINCIPLE IS, DO YOU? Has it ever occurred to you what would happen to my future, if I were to fail to live up to my responsibilities? Has it ever occurred to you? HAS IT?"

Shining

Visões (II)




M.C Escher
(quando estava a trabalhar na Clepsidra, um cliente ofereceu-me o livro, foi a minha primeira prenda mistério em ofícios)

domingo, 7 de março de 2010

Futuros diários do passado

"Dezembro 8

Estava para ir ao departamento, mas retiveram-me em casa várias razões e reflexões. Não me saíam da cabeça os problemas de Espanha. Como é possível que uma dona se faça rainha? Nunca será permitido. Em primeiro lugar, não o permitirá a Inglaterra. Depois a situação política de toda a Europa: o imperador da Áustria, o nosso czar... Confesso que tais acontecimentos me abalaram e deixaram a tal ponto mortificado que não consegui ocupar-me de nada durante todo o dia. A Mavra observou-me que eu estava distraidíssimo à mesa. De facto, parece que atirei por distracção dois pratos para o soalho, e se partiram. Depois do almoço, fui até aos montes de gelo. Nada saquei de edificante. Fiquei a maior parte do tempo na cama a cogitar sobre a política espanhola."

Nikolai Gógol


Atemporal 001

A replicação do meu discurso foi de 8.2 na escala de Adara. Segundo os críticos foi «sublime», «metafísico», «transcendental», «totalmente chocante e revolucionário». Traduzindo, creio que querem dizer algo como...«não entendemos nada disto».
Na minha estante havia um glossário, obra edificante, tudo o que compunha eram valsas e twists. Muito dançava eu nas palavras. Dançávamos.
Na altura absorvia o pequeno-almoço de pequenos tinteiros, frascos translúcidos, fios de pesca da tua alma. Não tenho linha. Nunca tenho linhas suficientes. Nada te traz. Nada te traz e nem te quero prender.
E um grito ecoava. Voava continuamente. Icarianamente...apenas para cair em mim a realidade da ausência.
Disseram que era «marcante», nunca viram a ferida.
Esse terramoto nem o teu coração abalou. Continuou o mesmo de pedra.
Só o meu faz tum tum tum.
Só o meu.


(tomei a liberdade de escrever um pouco mais como é usual em mim neste espaço)

sábado, 6 de março de 2010

Reencontrei a Alice...

...e quero ter direito a maravilhas.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Modernices...

Parece que a História Trágico-Marítima vai transformar-se em Trágico-Pluviométrica.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Porque o almoço era creme de cenoura...




"Um prato de sopa um humilde prato de sopa
comovo-me ao vê-lo no dia de festa
e entro dentro da sopa
e sou comido por mim próprio com lágrimas nos olhos"

Ruy Belo

Madrugadas (III)

Ou o produto de um sonho a horas incertas...

Se os anjos tivessem asas de abutres e circundassem os homens, ansiosamente à espera, num voo inocente para colher as suas almas...ainda chamaríamos por eles?

quarta-feira, 3 de março de 2010

Um clássico...



...destes nunca se perde.

O dia

Aquacinza salpicada até onde o meu olhar se enlaça...e nesta tela tudo me fere, tudo me maça.

terça-feira, 2 de março de 2010

Visões



Sir Roland Penrose

segunda-feira, 1 de março de 2010

Revisitar (II)



Sim, é verdade, este filme que toda as pessoas citam, no entanto, não poderia não falar dele tendo em conta que ainda hoje choro ao vê-lo...e foi por causa dele que me fascinei pelo Walt Whitman, como tal merece um canto aqui.

Várias quotes, porque 99% delas são boas:

"Keating: No matter what anybody tells you, words and ideas can change the world."

"Keating: We don't read and write poetry because it's cute. We read and write poetry because we are members of the human race. And the human race is filled with passion. And medicine, law, business, engineering, these are noble pursuits and necessary to sustain life. But poetry, beauty, romance, love, these are what we stay alive for. To quote from Whitman, "O me! O life!... of the questions of these recurring; of the endless trains of the faithless--of cities filled with the foolish; what good amid these, O me, O life? Answer. That you are here - that life exists, and identity; that the powerful play goes on and you may contribute a verse." That the powerful play goes on and you may contribute a verse. What will your verse be? "

"Todd: Truth is like a blanket that always leaves your feet cold. You push it, stretch it, it'll never be enough. Kick at it, beat it, it'll never cover any of us. From the moment we enter crying, to the moment we leave dying, it'll just cover your face as you wail and cry and scream. "

"Keating: Now we all have a great need for acceptance, but you must trust that your beliefs are unique, your own, even though others may think them odd or unpopular. Even though the heard may go " That's bad." Robert Frost said, " Two roads diverged in a yellow wood and I, I took the one less travelled by, and that has made all the difference." I want you to find your own walk right now, your own way of striding, pacing: any direction, anything you want. Whether it's proud or silly. Anything. Gentlemen, the courtyard is yours. You don't have to perform. Just make it for yourself. Mr. Dalton, will you be joining us?

Charles: Exercising the right not to walk.

Keating: Thank you, Mr. Dalton. You just illustrated the point. Swim against the stream."

(...)

"Shakes me, makes me lighter..."



Esta versão tornou-se numa das minhas drogas habituais.
(sorriso grande com dentinhos de coelho)

Estranheza...

"Agora olhava, piscando os olhos, um raio de sol que inundava a carpete e, ao pensar no dia seguinte, sentia-se corar. O barulho dos sinos lá fora... Feliz, deu meia volta e desceu. Enfim, qualquer coisa a fazer, um lugar aonde ir. Todos os domingos ia até à esquina comprar o jornal. O seu universo apossava-se novamente dele.
Quando chegou ao passeio, uma sensação inesperada invadiu-o. Havia qualquer coisa de novo na rua. Sentia-o. Talvez um cão que tivesse sido atropelado. Havia morte no ar. A rua parecia vazia, nada se agitava, o sol brilhava, amarelo e sufocante. Caminhava e olhava em volta. Verificou que a sua impressão era correcta."

Arthur Miller


Deparo-me comigo, um regresso incauto pois agora não sei o que dizer. Como um estranho, as palavras soam demasiado cordiais. "Boa tarde, como vai? - Cá se vai, mas este tempo não ajuda nada...", uma distância para sempre demarcada.
E não sei se este diálogo dual me seduz, somente sei que a paisagem sofreu alterações enquanto não prestava atenção...algo me diz para deixar voar e as minhas asas estão instintivamente abertas.