domingo, 7 de março de 2010

Futuros diários do passado

"Dezembro 8

Estava para ir ao departamento, mas retiveram-me em casa várias razões e reflexões. Não me saíam da cabeça os problemas de Espanha. Como é possível que uma dona se faça rainha? Nunca será permitido. Em primeiro lugar, não o permitirá a Inglaterra. Depois a situação política de toda a Europa: o imperador da Áustria, o nosso czar... Confesso que tais acontecimentos me abalaram e deixaram a tal ponto mortificado que não consegui ocupar-me de nada durante todo o dia. A Mavra observou-me que eu estava distraidíssimo à mesa. De facto, parece que atirei por distracção dois pratos para o soalho, e se partiram. Depois do almoço, fui até aos montes de gelo. Nada saquei de edificante. Fiquei a maior parte do tempo na cama a cogitar sobre a política espanhola."

Nikolai Gógol


Atemporal 001

A replicação do meu discurso foi de 8.2 na escala de Adara. Segundo os críticos foi «sublime», «metafísico», «transcendental», «totalmente chocante e revolucionário». Traduzindo, creio que querem dizer algo como...«não entendemos nada disto».
Na minha estante havia um glossário, obra edificante, tudo o que compunha eram valsas e twists. Muito dançava eu nas palavras. Dançávamos.
Na altura absorvia o pequeno-almoço de pequenos tinteiros, frascos translúcidos, fios de pesca da tua alma. Não tenho linha. Nunca tenho linhas suficientes. Nada te traz. Nada te traz e nem te quero prender.
E um grito ecoava. Voava continuamente. Icarianamente...apenas para cair em mim a realidade da ausência.
Disseram que era «marcante», nunca viram a ferida.
Esse terramoto nem o teu coração abalou. Continuou o mesmo de pedra.
Só o meu faz tum tum tum.
Só o meu.


(tomei a liberdade de escrever um pouco mais como é usual em mim neste espaço)

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